Folha de Domingo 10 – JANEIRO – 2021 Uma sociedade individualista como a nossa tende a ser muito agressiva, pois olha o próximo como um estranho e até como um concorrente. Em vez de se abrirem à alegria de ter o outro como irmão, encaram-no com medo e desconfiança, o que provoca um comportamento agressivo. É o que denunciou o Papa Francisco na Encíclica “Fratelli tutti”: “O individualismo consumista causa muitos abusos. Os outros tornam-se meros obstáculos à própria tranquilidade prazerosa. O Papa Francisco detecta esta agressividade em vários ambientes. Está presente, sem dúvida, nos meios de comunicação e nas redes sociais, onde o respeito pelos outros parece ter-se perdido. As redes favorecem “a ebulição de formas inusitadas de agressividade, insultos, maus-tratos, desqualificações, chicotadas verbais até destruir a figura do outro, numa devassidão que não poderia existir no contato corpo a corpo sem acabar se destruindo” (n.44). Todo o mundo digital provoca a perda do contacto humano e encoraja o desprezo pelos outros, especialmente pelos mais fracos. O pior – afirma o Papa – é que os cristãos também entram neste jogo de violência verbal através da Internet ou dos fóruns de intercâmbio digital, esquecendo a própria essência da sua fé. Mas há algo mais, porque toda essa violência e descontentamento podem ser usados para manipular o ser humano. As plataformas digitais favorecem grupos fechados que divulgam notícias falsas e incentivam o preconceito. Através deles, as consciências das pessoas e os próprios processos democráticos podem ser manipulados de uma forma subtil mas invasiva (cf. n.º 45). A segunda forma de agressividade que o Papa detecta é a política, praticada em muitos países. Para dominar as consciências, semeia-se a desesperança e desperta-se a desconfiança. Depois, “é utilizado o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. De diversas maneiras, é negado aos outros o direito de existir e de ter uma opinião, e para isso recorrem à estratégia de ridicularizá-los, de suspeitar deles, de cercá-los. Infelizmente temos experiência desta forma de transformar a política num pequeno jogo de desqualificações cujo objectivo é destruir os outros. Uma terceira forma de agressividade é vista pelo Papa naquilo que chama de “nacionalismos fechados”, isto é, aqueles que perdem o sentido social e promovem novas formas de egoísmo, que são apresentados como se fossem o bem da nação (cf. n. 11). Estes nacionalismos provocam fechamento dentro de si e são incapazes de acolher os outros. “O imigrante é visto como um usurpador que nada oferece” (n. 141). Pensa-se ingenuamente que um povo pode desenvolver-se independentemente da ruína dos outros e que, fechando-se ao resto, estarão mais protegidos. Por medo do outro, criam-se muralhas defensivas (cf. n. 146). Para enfrentar tanta agressividade, devemos ir além das reações primárias e estimular a reflexão serena, que nos leve a perceber que o outro não é um inimigo, que precisamos uns dos outros e que devemos cuidar uns dos outros. † Francesc Conesa Ferrer Bispo de Menorca
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